Quem sou eu?

Alguém sabe quem realmente é? Eu não sei quem sou. Sou tantos sentimentos, pensamentos, comportamentos e gostos diferentes. Já fui tão diferente e sinto que a cada dia sou uma nova pessoa, nunca acordo quem fui no dia anterior. Alguém saberia me dizer quem sou eu? Talvez eu pudesse ser uma lista de adjetivos, provavelmente seriam palavras diferentes dependendo de quem os listasse. Talvez eu pudesse ser o meu nome, mas então teriam mais outras de mim. Talvez eu seja a minha profissão, ou ainda, eu posso ser algo para alguém, como amiga, filha ou irmã. Mas na verdade eu sou tudo isso, e, ao mesmo tempo, nada disso. Tudo que existe e nada. Tão única que sou tudo, e acredito que assim sejamos todos. Somos um e por isso únicos em nossa infinita diversidade.

Eu te amo porque te amo.
Não precisas ser amante,
e nem sempre sabes sê-lo.
Eu te amo porque te amo.
Amor é estado de graça
e com amor não se paga.

Amor é dado de graça,
é semeado no vento,
na cachoeira, no eclipse.
Amor foge a dicionários
e a regulamentos vários.

Eu te amo porque não amo
bastante ou de mais a mim.
Porque amor não se troca,
não se conjuga nem se ama.
Porque amor é amor a nada,
feliz e forte em si mesmo.

Amor é primo da morte,
e da morte vencedor,
por mais que o matem (e matam)
a cada instante de amor.

As sem-razões do amor, Carlos Drummond de Andrade

Meu melhor amigo

Quando eu tinha oito anos costumava andar de bicicleta em uma rua sem saída que ficava perto da minha casa. Eu e mais alguns colegas de escola apostávamos corridas e inventávamos histórias que para nós eram tão reais quanto quaisquer outras. 

Um dia meu melhor amigo me contou que em uma casa na vizinhança havia uma ninhada de cachorros, e que os donos os iriam doar. Sem pensar duas vezes nós entramos nessa casa e fomos ver os filhotes. Eles eram uma graça, tinham cãezinhos brancos e pretos, todos tão pequenos que cabiam nas palmas das nossas, também pequenas, mãos. Os donos chegaram em casa e nos viram, duas crianças que invadiram sua casa e estavam brincando com os filhotes. Nós explicamos quem eramos e pedimos se poderíamos ficar  com um filhote. Eles disseram que a ninhada tinha recém nascido e por isso precisavam ficar mais tempo com a mãe, mas que se tivéssemos autorização dos nossos pais poderíamos ficar com um dali a algumas semanas.

Eu saí de lá correndo e fui direto pedir ao meu pai que me deixasse adotar um dos filhotes. Depois de algumas negociações e, o que depois se tornariam mentiras, promessas de que eu cuidaria sozinha do cachorro, meu pai concordou em adotar um novo integrante na família. Então voltamos lá e escolhemos um filhote que em breve seria meu e se chamaria Scooby, apesar dos protestos da minha irmã mais velha que queria ter dado um nome mais original. Todavia o cachorro era meu, e como o Scooby do desenho, ele se tornaria o meu parceiro de aventuras e mistérios.

Quando ele chegou em nossa casa era do tamanho de um rato. Tratei ele como meu próprio bebê, enrolei em cobertinhas e cantei para dormir. Mas logo cedo meus pais já perceberam que as minhas promessas de cuidar sozinha dele tinham sido vazias, porque apesar de eu passar muito tempo com meu novo amigo, não era eu que limpava sua bagunça nem que limpava seus potes de ração e água. 

Nos tornamos grandes parceiros. Participamos juntos de escavações em busca de ossos de dinossauro e de pistas sobre o antigo morador da nossa casa, fizemos nosso próprio laboratório de fitoterápicos com as plantas da minha mãe e treinamos juntos para a copa do mundo de futebol. O Scooby driblava a bola como nenhum outro cachorrinho, tivemos partidas de futebol muito acirradas no nossa pátio.

Passamos treze anos juntos. Infelizmente quando cresci me tornei menos presente e nossas brincadeiras se tornaram casa vez menos frequentes. Ainda assim no verão tomávamos banho de sol juntos no quintal e ainda jogávamos nossas partidas de futebol. Serei eternamente grata por te-lo tido em minha vida, e ele fará parte para sempre das minhas mais amadas memórias de infância. 

I don’t want to be at the mercy of my emotions. I want to use them, to enjoy them, and to dominate them.

Oscar Wilde
(via naturaekos)

Leveza

A vida não é uma competição. Amizades não são para comparação. Se somos únicos em todos os sentidos da nossa existência, não há ponto em buscar o melhor, o mais bonito, o mais inteligente. Não há parâmetros que possam nos classificar. Somo únicos. Cada um de nós, infinitos em nossas diferenças. Incríveis de maneiras inimagináveis, imprevisíveis e imensuráveis. E ir contra essa verdade só pode trazer sofrimento, peso nos ombros, a responsabilidade de alcançar o inatingível. Peso que nos prende ao chão e nos faz acreditar que nunca fomos capazes de voar.

Gênero textual

De certa maneira escrever um texto é um ato de grande coragem e bravura. Escrever um texto, com as próprias palavras, com a própria essência é um ato de rebeldia. Porque para isso é preciso enfrentar o cânone, o padrão, é ir contra as regras que estipulam como devemos nos expressar. Eu me pergunto, quem pode me dizer qual é a melhor forma de por em palavras o meu eu. Quem sabe mais do que eu sobre como o meu texto deve ser escrito, como devo materializar em significados a minha existência? Quem leu e estudou o suficiente para saber o formato das minhas ideias?

Texto

Eu tenho muita dificuldade de começar um texto. Depois que ele já existe eu não tenho problemas em continuar. Mas escrever aquela primeira palavra, aquela que cria o texto, que o traz para o mundo, que cria um novo universo; essa palavra é para mim muito difícil de ser escrita.

vielleicht ist es so, vielleicht ist es aber auch so nicht.
vielleicht. so ist es. vielleicht. aber ist es auch? so nicht.
vielleicht. ist es so? vielleicht. ist es aber auch so nicht.
vielleicht ist es. so! vielleicht ist es. aber. auch. nicht. so.
vielleicht. ist es so, vielleicht. istesaberauch nicht so.

vielleicht ist es so, vielleicht ist es aber auch nicht so.

vielleicht, vielleicht! so ist es, aber auch so ist es nicht.
vielleicht-vielleicht! so ist es auch nicht, aber so ist es.

leicht, soviel ist es, ist es aber vielleicht auch nicht.    so
leichtes ist so viel, aber vielleicht eist auch so nichts.
vieles eist so leicht, aber vielleicht ist auch so nichts.

so. vielleicht ist es viel, aber auch so ist es nicht leicht.

soso, aber ist es vielleicht auch vielleicht? ist es nicht?

so ist es viel, so ist es leicht, vielleicht aber auch nicht.

so leicht ist es nicht! vielvielleicht ist es aber auch so.

ist es auch viel so, leicht so, aber leicht ist es nicht viel.

aber es ist so. auch vielleicht ist vieles nicht so leicht.

ist es vielleicht auch bar so, vielen ist seicht so leicht.

vielleicht ist es so, vielleicht ist es aber so auch nicht.

so es auch nicht ist, vielleicht, ist es aber vielleicht so:
so es aber vielleicht so ist, ist “vielleicht” auch nicht “es”.
so es aber vielleicht so ist, ist es auch nicht “vielleicht”.

seit leichtes so viel ist, vielleicht aber auch so nichts,
ist es nicht so leicht, aber auch so ist es vielleicht viel.

aber es ist so. auch vielleicht ist viel nicht so leicht.    es
ist aber so es. vielleicht ist es auch nicht so vielleicht.

so es aber vielleicht nicht ist, ist es vielleicht auch so.
auch so ist es, nicht viel, aber es ist vielleicht leicht. so!
so viel, so leicht; ist es, ist es vielleicht aber auch nicht.
es ist soviel licht. vielleicht eist es aber auch nicht so.

leicht ist es viel so, aber auch viel ist es nicht so leicht.

Michael Lentz

[Tun]
Tun
Getan
Viel getan
Viel zu viel getan
Viel zu- viel nicht getan
Täte

Ruth Wolf-Rehfeldt

Uma rosa murcha ainda é uma rosa. Jorge Díaz Herrera

Uma rosa murcha ainda é uma rosa. Jorge Díaz Herrera